domingo, 17 de abril de 2011

Pouca terra, pouca terra...

Já se sabia que Portugal é um lugar estranho. Já se sabia que as dimensões exíguas do país são indirectamente proporcionais ao número de estranhas decisões e orientações político-sociais que condicionam, negativamente, a qualidade de vida e a evolução daqueles que, teimosamente, insistem em não partir. Já se sabia que em Portugal a memória é um bem teimosamente entendido como supérfluo, continuamente preterido em nome de uma concepção parola de inovação e progresso.

Não se sabia, ou pelo menos eu não sabia, que era possível utilizar a figura do documentário de uma forma tão eficaz para traçar um retrato apurado desta coisa a que continuamos, por simples hábito, a chamar de país.

No Sábado, num estranho exercício de bom gosto, a SIC difundiu, em horário nobre, o multipremiado documentário "Pare, escute, olhe" da autoria de Jorge Pelicano, cujo trailer podem encontrar aqui em baixo.



Excepcionalmente bem realizado, conjugando de uma forma perfeita diversas linguagens, este documentário traça um retrato social e humano das populações transmontanas, tendo como fio condutor a ferrovia, o seu papel no quotidiano das populações e a forma como tantas dinâmicas foram afectadas pelas decisões de um sem número de governantes. Pelo caminho, desafia uma determinada concepção de progresso, conecta-nos a valores fundamentais e faz-nos sentir um estranho sentimento de culpa pela forma como, nem que seja só por alguns momentos, os entendemos como anacrónicos.

Pelo caminho fazemo-nos convidados no quotidiano de pessoas comuns, cuja complexa simplicidade faz delas personagens inacessíveis ao melhor dos guionistas de ficção... Pelo caminho percebemos a importância social e comunitária das linhas ferroviárias transmontanas e simpatizamos com a Causa da Linha do Tua... Pelo caminho percebemos porque razão não nos conseguimos governar e muito do que perdemos, de forma irrecuperável, enquanto pensávamos que o conseguíamos fazer.

Vale a pena ver e, tal como eu fiz, rever, meus amigos e amigas...

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