terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXIX

Que o relógio está a contar.

Que em casa de ferreiro...

Que a Princesa cresce mais rápido do que a capacidade de adaptação do senhor seu pai.

Mariana e pai, em pleno momento Domingo de manhã, estavam na sala. Cada um tinha o seu "momento zen". Ela via bonecos, ele lia o jornal. A mãe dormia. O Domingo de manhã ninguém lhe tira.

Mariana (após ver uma cena dos desenhos animados) - Papá, viste? Bateu-lhe no pipi!

Pai de Mariana (numa habitual exercício de negação do crescimento da pequena) - Então, Mariana?!

Mariana - Tens razão. Bateu na pénis dele!

Pai de Mariana (repetindo o exercício de negação) - Mariana, não digas isso.

Mariana - Porquê? É o nome certo. Bateu-lhe na pénis. Tu também tens uma pénis. E eu tenho uma "vegine".

Pai de Mariana (em pensamento) - Está bonito, está...


Quando levar a mal, no Carnaval, devia ser obrigatório...

Mais uma vez, na época carnavalesca, deambulando pelos canais televisivos, foi impossível não nos depararmos com as reportagens, por vezes inenarráveis, sobre os Carnavais espalhados pelo país. Por esses dias, dou sempre por mim a lembrar um pequeno "E" que encontrava colocado nos calendários no quadradinho reservado ao dia de Carnaval, que me intrigava quando andava na escola, em petiz. Se é dia de Carnaval, porque raio aparece um "E" e não um "C", pensava.

Este ano dei por mim, novamente, a pensar no Entrudo ou, dito de maneira diferente, a rejeitar, ainda mais, o entendimento bafiento e abrasileirado que se tornou regra em Portugal quando se aproxima esta altura do ano. Não deixa de ser irónico que o povo que se está a abrasileirar no Carnaval, tenha sido o povo que levou as práticas do Entrudo para o Brasil... Sim, as voltas da história são retorcidas. No fim de contas, o que muitos fizeram, ao longo dos tempos, foi trocar a tradição portuguesa de festejo do Entrudo pela versão brasileira carnavalesca do mesmo que, insidiosamente, foi sendo recambiada para o nosso cantinho.

E o Entrudo, entendido como uma súmula das verdadeiras tradições nacionais, foi sendo esquecido em nome da sua subversão na forma de ritmos e práticas culturalmente e meteorologicamente desfasadas, de senhoras desengonçadas cuja quantidade de tecido no corpo é indirectamente proporcional ao volume do mesmo, pela parolada do endeusamento dos actores de telenovela e por uma imitação de outros carnavais contextualmente e culturalmente localizados. O que é uma pena. Ao contrário do que se possa pensar, e do que é habitualmente salientado nesta altura, o Entrudo é rico em tradições, hábitos e movimentos culturais que, não havendo uma inflexão carnavalesca, se irão perder e tornar uma simples excentricidade. A tradição terceirense de festejo do Carnaval é um feliz exemplo da perenidade da tradição carnavalesca popular, que, sadiamente, não acusa a erosão do tempo ou o ostracismo de tantos que não o querem, ou não o sabem, valorizar.

Na Terceira, e noutras paragens do país, resistem hábitos culturalmente e contextualmente enraizados que deviam, e facilmente podiam, ser enfatizados, permitindo ganhar terreno à más imitações acríticas daquilo que se faz noutros locais do mundo. E se é certo, ou pelo menos dado como certo, que no Carnaval ninguém leva a mal, também é certo que rrita que poucas pessoas não levem a mal que lhes sejam insidiosamente subtraídas coisas que são suas. Levar a mal o ostracismo mediático, na comunicação social nacional, deveria ser obrigatório no Carnaval. Levar a mal a disparidade mediática entre esta singularidade da Terceira e outras que a caracterizam deveria, igualmente, acontecer. Pelo menos na opinião deste terceirense adoptivo que, quer-me parece, não está sozinho na opinião…

Este ano, a Terceira voltou a protagonizar aquele que é um espectáculo de arte popular singular, enorme, significativo e, que continua a ser, desconhecido para tantos e tantas fora da Ilha. Um Carnaval de luxo cuja importância e significado não encontra eco na forma como é tido em conta, noutras paragens. Um tesouro que continua a ser ignorado, fora destas nove ilhas, sem merecer uma reportagem digna nos órgãos de comunicação social nacionais. Abaixo os sambistas de ocasião! Vivam os caretos, os gigantones e, acima de tudo, todas as danças. comédias e bailinhos do Carnaval da Terceira e todas as pessoas que participam, nas mais variadas formas, neste fenómeno único.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O que se aprendeu, hoje, com a Mariana... - LXVIII

Que, quando as sinapses se vão formando a bom ritmo, a linguagem começa a ganhar novos significados.

Que o sarcasmo, ainda que os petizes não o saibam definir a contento, se aprende bem cedo.

Que as definições dos conceitos de uma pequena de seis anos é muito mais interessante do que aquelas que os adultos encontram. Mesmo.

Que, como noutras alturas, a Princesa está a crescer bem.

Cá em casa, temos um cão. Gostamos tanto dele, como ele gosta de fazer covas no jardim. E, no episódio da história de hoje, autênticos túneis. Sim. O cão é grande e desaparece nele.

Pai de Mariana (enquanto voltava a tapar o túnel, gesto que o cão aprecia tanto, mas tanto que tende a retomar o seu túnel capaz de propiciar a evasão de um El Chapo qualquer): Tobias, não! Não!

Mariana (enquanto olha para o cão e ajuda no trabalho de Sísifo que o seu pai tende a repetir): Posso agradecer ao Tobias?

Pais de Mariana: O quê?!

Mariana: Agradecer quando uma coisa é má...

Pais de Mariana (renitentes...): Podes...

Mariana: Obrigadinha, Tobias. Quando se agradece em bem, diz-se obrigado. Quando se agradece em mau, é obrigadinha.

Obrigado, Mariana.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Académica

Na minha profissão, enquanto psicólogo, falo muito de limites, da necessidade de os estabelecer, de os respeitar e da firmeza necessária quando os mesmos são ultrapassados. Da forma como os mesmos, por exemplo nas relações, não devem ser re-traçados de forma recorrente, de uma forma que perturbe uma das partes e que lhe roube a sua identidade, os seus valores, a sua singularidade enquanto pessoa.

Hoje, com este vergonhoso mercado de Inverno, batemos mais uma vez no limite, aquele que retraçamos há anos. Aquele que já estava mais do que ultrapassado, aquando da FInal da Taça de 2012. Foi uma das maiores alegrias da minha vida, mas deu um balão de oxigénio a quem não o merecia. A quem não o aproveitou. Não, poupem as teclas, não estou a dizer que preferia não ter ganho a Taça. Estou a dizer que me revolta onde estamos, só, quatro anos depois. Em tudo, TUDO, estamos pior. Em TUDO continuamos a ultrapassar limites. Dir-me-ão que na formação estamos melhor. Não sei. Tardamos em ter uma política que a enobreça. Temos gente responsável com vínculos mais do que precários ao clube. Temos gente competente nas camadas jovens, seja nos jogadores, seja nos treinadores. Seremos capazes de as agarrar? Temo que não. Temos pessoas, não temos uma política. Aderlan é um dos piores laterais que já passou pela Académica; leio que temos um puto bom nos juniores, que fizeram uma óptima carreira até agora. Joga? Tem uma oportunidade? Não. Não vou na teoria dos amarelanços a mais no jogo com o Sporting. O Aderlan é expulso, e bem expulso. Assim como o Rafael Lopes poderia ter visto uma amarelo alaranjado mais do que justo. Assim como marcamos um golo ridículo de tão ilegal que era. O terceiro golo é responsabilidade do Aderlan que se fez expulsar. A culpa não é dele. É de quem o contratou. A ele, ao Ofori, ao Lucas Mineiro e a dezenas e dezenas de jogadores. Nunca falamos de Luís Agostinho. Será, penso, o director desportivo que, há mais tempo, ocupa um lugar semelhante na Primeira Liga. Dirige desportivamente o quê? Com que critério? Com que salário? Com que produtividade? Presumo que, na Académica, não haja avaliação de desempenho. Na Académica habituámo-nos a não entender as decisões. Já não estranhamos. Discutimos uns com os outros, os progressistas contra os tradicionalistas, os do pontapé na bola contra os do jogador estudante, os coimbrinhas contra os cosmopolitas, os do JES contra os do Anti-JES. Pelo meio, a Académica definha. A energia tem que estar focado na alternativa. Tem que haver alternativa. Ontem já era tarde.

Já agora, há quatro anos ganhávamos ao Atlético de Madrid, orgulhando na carreira na Liga Europa. Onde estamos, hoje, em TUDO? Pois.

Estou-me marimbando para quem me/nos acusa de poesia desmesurada ou de um so called sebastianismo. Até para que me/nos acusa de ser coimbrinha (seja lá isso o que for que, em 34 anos de vida, nunca entendi). Sei que muitos de nós têm uma visão do que pode ser a Académica, na sua singularidade. Com diferenças na diversidade de opiniões, mas, espero, com a certeza do carácter absoluto dos valores que nos distinguem. É ser coimbrinha reconhecer a VERGONHA que, no momento, somos? É ser poeta ter aprendido o que é a Académica e querer que haja uma versão simbiótica que conjugue valores com modernidade, rentabilizando formação, futsal (sim… o ideal do jogador-estudante pode exponenciar-se, também, aqui!) e sucesso desportivo? É saudosista querer uma Académica ligada à Universidade e à cidade? É ser coimbrinha revoltar-me contra o degredo em que estamos? É ser sebastianista desejar alguém, uma equipa, uma visão para a Académica que não nos envergonhe, no lugar de pessoas em que cada vez menos se revêem?

Já agora, há quatro anos metíamos mais de quinze mil pessoas, num dia de semana à noite contra a Oliveirense? E agora, onde estamos? Com duas mil pessoas por jogo, uma claque alienada e um número de sócios a mirrar todos os meses (o que, naturalmente, é altamente conveniente…? Quantas pessoas conhecem, como eu conheço, que deixaram de ser sócias, nos últimos anos? Centenas? Milhares!

Acho, sinceramente, que evitaremos a descida. Acho, com pena, que continuaremos a re-traçar o limite. A fugir dos rótulos, numa espiral conformista. TUDO o que a Académica não devia ser.

Sugiro que, um dia, tal como eu já fiz, vão ver um jogo da SF. A “outra” Académica. Cheira mais a Briosa, do que o OAF. Uma caricatura de si mesma, no momento.

Acabou o tempo desta Direcção que está a matar a Académica e a alienar o seu património histórico. E, pelo que vou lendo, a não fazer grande bem ao património financeiro. Chega. Acabou o tempo de um presidente que nos envergonhou, ainda que tenha tido um papel válido numa altura em que ninguém queria agarrar na Académica. Sim, tem esse mérito. Dou-lhe esse mérito. Chega de um Godinho que ameaça sócios e que, igualmente, se eterniza. Chega de um Agostinho, como atrás referi.

Há menos de quatro anos, sonhámos. Hoje já não estranhamos o pesadelo.

Quero, mesmo, a minha Académica de volta. Estou farto de ver todos os limites ultrapassados. Sei que não estou sozinho.

A-CA-DÉ-MI-CA